Diz-me a verdade, mesmo que mintas

“Jura que vamos sentarmo-nos lá fora no jardim, o frio a lamber-nos o corpo, eu aninho-me em ti e ouvimos as estrelas e olhamos o silêncio cortado pelo vento nas folhas dos pinheiros. Diz-me a verdade, mesmo que mintas. Promete-me que no futuro, estaremos sós os dois, aqui nesta casa, as nossas impressões digitais coladas pelas paredes, fechamos todas as luzes e apenas as labaredas da lareira vão inundar a casa, tons quentes no frio da noite mágica. Diz-me a verdade, ainda que me mintas. Diz-me que vamos voltar atrás quando andarmos para a frente, e de novo saborear os nossos corpos, já lá vai tanto tempo que já não tenho o sal da tua pele na minha memória. Não sei se vamos retomar à paixão de há tantos anos atrás ou à acalmia do amor sereno mas tanto me faz, o que quero mesmo a voltar atrás nesse futuro e quando entrar a porta do quarto saborear de antemão o prazer das tuas mãos a tecerem rendas na minha pele. Diz-me a verdade, nem que me tenhas que mentir, e pintar o céu de outra cor qualquer, e dar-me asas para voar, que eu não aguento mais, aqui sufoco, aqui morro todos os dias mais um pouco. Diz-me a verdade mesmo que me mintas e eu levar-te-ei nos meus braços quando levantar voo daqui sem sairmos os dois do sofá, da carpete, da cama. Mas diz-me a verdade. Diz-me toda a verdade coberta pelas mais doces mentiras, essas promessas de futuro, de acalmia, de passeios na praia quando o frio aperta e as gaivotas baixam ao areal. Diz-me a verdade e promete-me uma noite de sono. Mente e diz-me que vou dormir como um bebé virgem de medos, sem estes terrores nocturnos, sem este acordar diário a teu lado na cama, e contudo, tão só como o primeiro ser do universo. Diz-me a verdade que não me importo que seja mentira. Já não faz diferença alguma, na verdade o que te peço é que me mintas, mas desta vez não me dês uma das tuas mentiras que me fazem chorar, que me fazem sangrar e me roubam dias de vida. Não. Diz-me a verdade da mentira que vamos viver. Diz-me depressa que eu não sei quanto tempo mais consigo respirar aqui! ”

Luísa Castel-Branco

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