Gosto do que me tira o fôlego

“Não sou boa com números. Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego. Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme. Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil. Não coleciono inimigos. Quase nunca estou pra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo. Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E – sem saber – busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir… Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem – na verdade – a gente é. “

Fernanda Mello

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Amor e sexo

 
“Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a lei; sexo é invasão.

O amor é uma construção do desejo. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre com tesão. Amor e sexo, são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno – depende da quantidade ingerida.

O sexo vem antes. O amor vem depois. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha.

O amor sonha com uma grande redenção. O sexo sonha com proibições; não há fantasias permitidas. O amor é o desejo de atingir a plenitude. Sexo é a vontade de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade – nunca é totalmente satisfatório. O sexo pode ser, dependendo da posição adotada. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos.

O amor é mais narcisista, mesmo entrega, na ‘doação’. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo do egoísmo. Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do ‘outro’. O sexo, mesmo solitário, precisa de uma ‘mãozinha’. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até na maior solidão e na saudade. Sexo, não – é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora. O amor vem de nós. O sexo vem dos outros. ‘O sexo é uma selva de epilépticos’ (N. Rodrigues). O amor inventou a alma, a moral. O sexo inventou a moral também, mas do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge.

O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói – quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: ‘Faça amor, não faça a guerra’. Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas. O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica.

O sexo sempre existiu – das cavernas do paraíso até as ‘saunas relax for men’. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século XII e, depois, relançado pelo cinema americano da moral cristã.

Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem – o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção; sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é programá-lo, como faz a indústria da sacanagem. O mercado programa nossas fantasias.

Não há ‘saunas relax’ para o amor, onde o sujeito entre e se apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um ‘amorzinho’ para iniciar. O amor virou um estímulo para o sexo.

O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. Amor busca uma certa ‘grandeza’. O sexo é mais embaixo. O perigo do sexo é que você pode se apaixonar. O perigo do amor é virar amizade. Com camisinha, há ‘sexo seguro’, mas não há camisinha para o amor.

O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos casados.

Amor precisa do medo, do desassossego. Sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente na perda. O grande sexo sente-se na tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda – ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta.”

 

Arnaldo Jabor

Even the best fall down sometimes

Stand Up

O silêncio da vida

“No início, é a capacidade de sonhar que se desvanece, devagarinho, quase sem darmos por isso. Depois, deixamos de ter expectativas, porque doem de mais, cada uma parece conduzir a mais um desengano, mais alguém que nos deixa magoados, perdidos perante a realidade. Depois, pouco a pouco, um pedacinho de cada vez, o silêncio instala-se dentro de nós, toma conta da alma e do coração, larga amarras e não parece que um dia parta.

Então submergimos nos dias, nas rotinas. Fazemos o que é esperado, sem levantar a voz, sem queixumes ou argumentações. Para quê? Não vale a pena.

E é quando chegamos aqui, a este momento exacto em que descobrimos com surpresa que nada parece valer a pena, que enco-lhemos como uma flor murcha, sentimos sem saber como, que definhamos por dentro, dia após dia.

Os outros dirão que ganhámos maturidade, que somos agora pessoas muito mais cordatas e pacificadoras. E nós acenamos com a cabeça, colamos o sorriso na cara e dentro de nós uma vozinha grita que não, que agora estamos a morrer e dantes vivíamos. Mas a vida é isto mesmo. Se calhar, o mesmo acontece àquele que trabalha ao nosso lado, à vizinha do terceiro andar, à amiga de toda a vida.

Mas evitamos falar do assunto, como se ao transformarmos este mal-estar em palavras, ele se tornasse muito mais real, muito mais concreto. É mais fácil assim. Sentamos à mesa e ouvimos os filhos falarem, tão cheios de certezas, tão seguros de si. E vêem-nos à memória o tempo em que também tínhamos certezas, o tempo em que não nos rendíamos, ah! Foi há tão pouco e parece ter sido noutra vida!”

Luisa Castel-Branco

Diz-me a verdade, mesmo que mintas

“Jura que vamos sentarmo-nos lá fora no jardim, o frio a lamber-nos o corpo, eu aninho-me em ti e ouvimos as estrelas e olhamos o silêncio cortado pelo vento nas folhas dos pinheiros. Diz-me a verdade, mesmo que mintas. Promete-me que no futuro, estaremos sós os dois, aqui nesta casa, as nossas impressões digitais coladas pelas paredes, fechamos todas as luzes e apenas as labaredas da lareira vão inundar a casa, tons quentes no frio da noite mágica. Diz-me a verdade, ainda que me mintas. Diz-me que vamos voltar atrás quando andarmos para a frente, e de novo saborear os nossos corpos, já lá vai tanto tempo que já não tenho o sal da tua pele na minha memória. Não sei se vamos retomar à paixão de há tantos anos atrás ou à acalmia do amor sereno mas tanto me faz, o que quero mesmo a voltar atrás nesse futuro e quando entrar a porta do quarto saborear de antemão o prazer das tuas mãos a tecerem rendas na minha pele. Diz-me a verdade, nem que me tenhas que mentir, e pintar o céu de outra cor qualquer, e dar-me asas para voar, que eu não aguento mais, aqui sufoco, aqui morro todos os dias mais um pouco. Diz-me a verdade mesmo que me mintas e eu levar-te-ei nos meus braços quando levantar voo daqui sem sairmos os dois do sofá, da carpete, da cama. Mas diz-me a verdade. Diz-me toda a verdade coberta pelas mais doces mentiras, essas promessas de futuro, de acalmia, de passeios na praia quando o frio aperta e as gaivotas baixam ao areal. Diz-me a verdade e promete-me uma noite de sono. Mente e diz-me que vou dormir como um bebé virgem de medos, sem estes terrores nocturnos, sem este acordar diário a teu lado na cama, e contudo, tão só como o primeiro ser do universo. Diz-me a verdade que não me importo que seja mentira. Já não faz diferença alguma, na verdade o que te peço é que me mintas, mas desta vez não me dês uma das tuas mentiras que me fazem chorar, que me fazem sangrar e me roubam dias de vida. Não. Diz-me a verdade da mentira que vamos viver. Diz-me depressa que eu não sei quanto tempo mais consigo respirar aqui! ”

Luísa Castel-Branco

I’ve said too much, I set it up